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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Dança na Universidade

A Carol tem andado super envolvida (e atarefada...rs...) por conta do mais novo curso da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais): DANÇA!

É, isso aí, pessoal! Licenciatura em Dança na UFMG! Hoje são muitos os cursos de graduação e pós em todo o Brasil. E só de pensar que, até pouco tempo atrás, eram apenas 3 ou 4 curso no país... De fato, a dança tem crescido e a possibilidade de se aperfeiçoar na área, dentro do universo acadêmico, também. Pensando nisso, a gente resolver postar aqui uma lista dessas faculdades onde há graduação em dança. Aproveite para conhecer e divulgar!

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas - CAMPINAS (SP)
http://www.iar.unicamp.br/corporais/dan_curso.php

UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PORTO ALEGRE (RS)
http://www.prograd.ufrgs.br/guiaprofissoes/curso_d.htm

UERGS - Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - MONTENEGRO (RS)
http://www.uergs.edu.br/index.php?action=cursosLocaisDesc.php&cod=7

UFPel/IAD - Fundação Universidade Federal de Pelotas - PELOTAS (RS)
http://www.ufpel.edu.br/academica.php

FAP - Faculdade de Artes do Paraná - CURITIBA (PR)
http://www.fap.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=12"

UFPA - Universidade Federal do Pará - BELEM (PA)
http://www3.ufpa.br/ica

UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - NATAL (RN)
http://www.prograd.ufrn.br/conteudo/cursos/curso.php?id=56

UFAL - Universidade Federal de Alagoas - MACEIO (AL)
http://www.ufal.edu.br

UFS - Universidade Federal de Sergipe - LARANJEIRAS (SE)
http://www.ufs.br/

UFBA - Universidade Federal da Bahia - SALVADOR (BA)
http://www.danca.ufba.br

UFV - Fundação Universidade Federal de Viçosa - VICOSA (MG)
http://www.dan.ufv.br

UEA - Universidade do Estado do Amazonas - MANAUS (AM)
http://www1.uea.edu.br/categoria.php?categoria=GRA

UFPE - Universidade Federal de Pernambuco - RECIFE (PE)
http://www.proacad.ufpe.br/cursos/danca.html

UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro - RIO DE JANEIRO (RJ)
http://www.eefd.ufrj.br/bacharelado-em-danca
- titulação do corpo docente do Departamento de Artes Corporais da EEFD - UFRJ
http://www.ceme.eefd.ufrj.br/dancedu/ocurso.htm

PUC São Paulo - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - SÃO PAULO (SP)
- Comunicação das Artes do Corpo
http://www.pucsp.br/comfil/curso.php?curid=5

UniverCidade - Centro Universitário da Cidade - RIO DE JANEIRO (RJ)
http://www.univercidade.edu/uc/cursos/graduacao/danca/index_danca.asp

FAV - Faculdade Angel Vianna - RIO DE JANEIRO (RJ)
http://www.escolaangelvianna.com.br/faculdade.htm

UNESA - Universidade Estácio de Sá - (RJ)
http://www.estacio.br/_cursos/politecnico/danca_salao_coreografia/ficha.asp

Universidade de Cruz Alta - CRUZ ALTA (RS)
http://www.unicruz.edu.br/site/cursos/danca/

Universidade Anhembi Morumbi - SAO PAULO (SP)
http://anhembi.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2351&sid=11

Faculdade Tijucussu - SAO CAETANO DO SUL (SP)
http://www.factijucussu.edu.br/index.asp?Lnk=artesc

Universidade Luterana do Brasil - CANOAS (RS)
http://www.ulbra.br/danca/?q=capa

Faculdade Padrão - GOIANIA(GO)
http://faculdadepadrao.com.br/cursos.php

Faculdade Paulista de Artes - SAO PAULO (SP)
http://www.fpa.art.br/licenciatura_danca.php

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Pelo Belo



Li o texto abaixo do Gerson Borges e não tive como não concordar plenamente com ele! Eu, Paula, Camila e Fabrícia temos conversado muito sobre essa tal dança contemporânea que, por muitas vezes, na tentativa de ser tudo, acaba sendo qualquer coisa... Parece que falta algo... Enfim, deixo com o Gerson essa reflexão... E claro, com vocês também...


Há qualquer coisa de podre na arte contemporânea


Não gosto muito de ler polemistas, sobretudo cronistas de jornais.

Fico meio desconfiado de suas posturas e intenções. Esse papo esquerda-direita, embate ideológico (ou vaidosa tertúlia intelectualóide) do tipo Veja X Carta Capital já me cansou. Teimo, e isso pode ser o tal pecado do julgamento, em achar que é a falta de assunto que os motiva. Mas a "zica" e a ironia é que polemistas acabam por prestar bons serviços à nossa inteligência e fígado – pelo menos dou boas, muito boas risadas. Nos dão coceira mental. E são lutadores, devo admitir. "Polemistés", no grego, quer dizer guerreiro. Os caras gostam de brigar!

Um dias desses, pondo meu arquivo de recortes de jornais em dia, dei com os olhos num texto meio amarelado de Arnaldo Jabor (Segundo Caderno, O Globo, 11/11/2003), que me salvou a manhã tediosa. Eis um polemista! Nem Cony, nem Maynardi: Jabor. Que "Caros Amigos", "Piauí", que nada: Jabor! O rei da ironia debochada... e edificante! Nessa coluna escrita há seis anos, o cineasta-que-virou-colunista abre o coração(!) e conta de uma visita-retiro espiritual, quase, a Veneza.

"Depois de dois anos sem sair do país" - ele contava - "impregnado de todos os bodes do Brasil e do Mundo, pois minha profissão atual é ser esponja das notícias e dos fatos que elas escondem".
Eram os cinzentos dias pós-11 de Setembro. Jabor se refugia na espantosa beleza da cidade e nas obras da Renascença que atulham aquela antiga República do comércio entre o Oriente e o Ocidente... Tintoretto, Veronese, Ticiano. Fiquei dias dentro da Scuola Grandi di San Rocco... Extasiado, purificado, renovado, caí na besteira de visitar um templo da Arte Moderna, a casa de Peggy Guggeheim, onde se empilham os primórdios da Modernidade artística do Século XX".

Sua conclusão é - pasmei - a minha: um show de contrastes que me deu uma certeza: há qualquer coisa de podre na arte contemporânea... há uma ausência de esperança que danifica a obra de arte. Isso mesmo: esperança".

Caramba, tenho um irmão-de-armas na minha dor de ver o lixo sendo tratado como arte: Jabor! Tenho um companheiro no mal-estar que invade ao dar uma olhadeda nas Bienais: Jabor! Ele, como eu, acreditamos na beleza e na esperança que uma obra de arte, simplesmente por produzir na alma da gente genuína fruição poética, o prazer do belo. Ele, como eu, cita Stravvinsky, enchendo a boca: “A obra de arte tem de ser exaltante”.

Sua crônica termina com uma pergunta contundente: será que "o novo" não pode ser "um belo" que denuncie, com sua luz, sua esperança, a injusta vida?.

Jabor enfrenta, portanto, até mesmo a pergunta célebre de Adorno e de seus companheiros da Escola de Frankfurt, corrente filosófica de origem judaica-alemã: "Qual o sentindo de se escrever poemas depois do horror de Auschwitz?" O mesmo de sempre: fruição estética, denúncia (como o fazem também os profetas), expressão de toda gama de sentimentos (como o fazem também os salmistas), celebração e relevância.

Estou cheio da feiúra! Farto do cinza-escuro da fumaça escatológica de Blade Runner e seus congêneres menores, esse cinema do caos futurística e dos clichês baratos. Estou farto de Gerald Thomas e seu anti-teatro pseudo-cult. Estou farto do Trash (êta definição mais acertada) Metal e seus grunhidos sem sentido - e daqueles que chamam isso de música.

Música? Música é Bach, Jobim, Mozart, Lenine – melodia, harmonia, ritmo – a velha trinca. Gente, ruído não é música. Por favor! John Cage, Schoenberg, Miles Davis e toda gente do Free Jazz mais doido de tão outside que me perdoem! Quero melodias que me arrebatem! Estou farto dessa arquitetura besta das nossa cidades enfumaçadas do Novo Mundo Capitalista, que confunde gente com pombos. Não há beleza num pombal, por mais assimétrico que sejam suas formas. Estou até aqui dessa dança feia dançada por corpos idem de tão expostos e distorcidos, coreografia da decadência. Estou aturdido de tantos pseudos-Pollaks e seus quadros que, ok, se expressam algo do artista expressam seu ...vazio. Não precisa ser um retrato do Real, mas que não me angustie com o Nada. A Arte Moderna é velha como o Universo pré-edêmico: sem forma e vazia. Sem limites. Sem beleza. Estou enjoado dessa poesia do lixo, e olha que não sou contra a fragmentação de um Guimarães Rosa e de um Graciliano Ramos. Vejam como escrevem bem (bonito)! Poetas de verdade descrevem o lixo com luxo:

O Bicho (Manoel Bandeira )

Vi ontem um bichoNa imundície do pátiocatando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,Não examinava nem cheirava:Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,Não era um gato,Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

A contribuição de Schaeffer , ao tentar construir uma visão cristã do Ocidente e da Arte, pode ser até equivocada (senão ultrapassada) em alguns pontos (Brian McLaren, por exemplo, pensa assim), mas sua afirmação de que não há Graça na arte moderna é mais do que adequada.

A arte ficou sem Graça/graça, com maiúsculo e minúsculo.

Mas volto a Jabor: há mesmo qualquer coisa de podre na arte contemporânea. A poesia está mal das pernas. Vivemos em um mundo de prosa. Em um mundo de prosa, tudo fica prosaico, vulgar, material, sem elevação, corriqueiro, chão. A feiúra da Arte é o retrato do coração do homem de hoje, prosaico, feio, não-espiritual. O Real é belo, é Deus. Deus vive na realidade. Mas não temos olhos para ver o Real. O Belo é real. Minha querida Adélia Prado está certa: "só o visionário vê o real". Jabor, danado, que visionário é você! Deus o abençoe!

(texto de Gerson Borges, extraído do Portal Cristianismo Criativo.)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sobre Processo Criativo

Do Processo Criativo à Criatividade como Processo

“No princípio criou o Senhor Deus os Céus e a Terra” (Gen. 1:1).

Toda vez que pensamos em criatividade, nos remetemos imediatamente à idéia de inspiração, como uma força, um “vento” mágico que nos ofertaria, graciosamente, o conjunto de habilidades necessário à produção de coisas incontestavelmente novas.

Achamos, no final das contas, que a inspiração é um sopro (ou um fôlego de vida). Queremos criar, “do jeito que Deus criou”. A variante Laica, nem por isso menos mística dessa impressão é, talvez, a noção de gênio. Formulada por Kant e levada às últimas conseqüências pelo romantismo.

Do espelhamento ordinário das duas perspectivas, o que nos resta é de um lado um Deus “todo-razão”, lançando luz sobre as trevas do universo infinito e ordenando-o (“E disse Deus haja Luz [...] e disse Deus haja separação entre água e terra seca / entre dia e noite / entre firmamento e terra,...") e do outro, o homem iluminado, movido por algo de metafísico ou por uma disposição de animus inexplicavelmente criativa.

Fui convidado a dar uma palestra sobre processo criativo na faculdade, revirei minhas coisas, referências, bibliografias e, de repente, peguei-me lendo o livro de Gênesis – não era para falar sobre processo criativo? Então vamos ler o livro da criação – curiosamente, descobri que, ao contrário do que a tradição religiosa nos fez crer, o relato da criação do mundo, assim me pareceu ao menos, não nos fala da criatividade como pura iluminação, mas como processo. Diria até que podemos extrair do referido relato uma metodologia de trabalho. É exatamente isso que vamos tentar adiante.

Faço aqui uma ressalva, antes que os especialistas me acusem de heresia. Não pretendo abordar o texto de um ponto de vista hermenêutico rigoroso. Não pretendo discuti-lo de um ponto de vista teológico e especializado. Nem pretendo também criar nenhum novo movimento do tipo “criatividade profética”. Tomarei a liberdade de considerá-lo [“apenas”] sob o ponto de vista literário e, sendo assim, reservo-me ao direito de inventar sentidos, experimentar idéias, partilhar impressões, ao contrário de buscar saber o que “efetivamente” o texto quer dizer sobre esse assunto ou sobre qualquer outra coisa. Dito isso, vamos deixar de desculpas e partir para o que interessa.

“No principio criou Deus os Céus e a Terra”. Acompanhando a narrativa bíblica, a primeira coisa que percebemos é que Deus poderia ter criado o mundo num estalo, que o mundo poderia ter sido criado inteiro, todo pronto de uma vez – alguém duvida disso? As águas poderiam ter surgido junto dos peixes, que surgiriam no mesmo “instante” em que se deu a separação entre dia e noite, que se daria no mesmo instante em que surgira o próprio homem, e assim por diante.
Entretanto, a criação divina se divide em sete etapas. Cada coisa foi criada no seu devido “tempo”. Primeiro a luz, depois a separação entre luz e trevas, então nomeia o dia e a noite (criando, por assim dizer, o tempo), a seguir, separa o firmamento da Terra, terra seca e oceanos e assim por diante.

Uma das coisas que nos paralisa talvez, diante do desafio criativo, é a expectativa de que a criação deva se dar por inteira. Como se Deus tivesse dito – haja tudo. O relato da criação divina nos mostra, porém, que há um tempo para cada etapa que precisa ser cumprida num processo criativo. Mostra que criar depende de regras, de ordem e de método. Estudo, pesquisa, experimentação, tentativa e erro, substituição de idéias, rascunhos, papel amassado. Todas essas coisas precisam ser incorporadas e adequadas à sua metodologia de trabalho.

Outra observação importante é que a bíblia nos diz que entre um ato e outro da criação “houve tarde e manhã”. Paciência e disciplina são duas virtudes importantes sem as quais não há nenhum processo criativo consistente. O tempo é um agente criativo importante. Precisamos aprender a deixar o trabalho “entardecer”. Há sempre um momento de “ocaso” do processo. Momento de voltar para casa, repensar a cena, as cores, as notas ou arranjos.

Momento de amadurecer a idéia de uma nova cena, de deixar o ator pensar em suas falas, se acostumar com as marcas, etc. Momento de desligar do trabalho e pensar em outras coisas, assistir a coisas que nada tenham com ele, ouvir outras músicas. Às vezes nos fechamos demais num projeto e não percebemos que as “soluções” para ele podem vir de fontes inimagináveis. Temos, entretanto, que nos abrir para essas fontes. E passado esse entardecer, nos forçar também a voltar, afinal, já é dia e precisamos continuar com o trabalho. Como saber, porém, o momento do entardecer e o momento de retornar?

“Viu Deus que isso era bom”. A bíblia nos diz que Deus olhou para sua criação. Autocrítica é fundamental nesse momento. A crítica externa também, pessoas da área, de ministérios vizinhos – ficamos sempre tão isolados, o momento de ensaio parece uma ótima oportunidade de troca com “o pessoal do ministério de teatro da igreja ao lado” – não parece? Ouvir e saber julgar, construir parâmetros também para julgamento, assistir a outros ministérios, ver o que se está produzindo fora da igreja, ler, estudar, capacitar o olhar. Aprender a ver, não como o “irmão da igreja”, tão condescendente, mas de forma especializada, ver com qualidade e não apenas com boa vontade. Mas só isso, pois,“viu Deus que era bom”.

Vou insistir nessa fala para dizer que Deus não somente viu, mas também viu que era bom. Tão importante quanto ter um olhar franco e sem melindres é saber ver o que há de positivo em cada ponto do processo. Isso mesmo. Creio que a chave seja aprender a encarar o processo como processo (algo pode ser mais simples que isso?). Uma cena trabalhada pela primeira vez terá uma série de problemas, se eu for julgá-la como um produto acabado, o juízo será terrível, mas, como processo, posso avaliar o que conseguimos avançar, compreender os “defeitos” da cena como parte do material que precisa ser elaborado e reconhecer as conquistas possíveis para aquela etapa do trabalho.

De outra forma, ficamos travados, não conseguimos avançar porque os contornos do desenho estão mal feitos, porque não encontramos as cores certas, ou porque a inflexão correta não aparece. Estar sempre disposto a tentar, tentar é a graça, precisamos aprender. São os esboços de cena que nos preparam para as cenas mais perfeitas. Os desvios fazem parte do processo e isso é sempre muito bom.

“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gen. 1:26)
“Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida; e o homem passou a ser alma vivente.” (Gen. 2:7).
Ainda:
“Havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.” (Gen. 2:1)

Bom, quero terminar dizendo que nenhum processo criativo se faz sem trabalho ou sem descanso. Por um lado, Deus formou o homem, soprou em suas narinas. Criar o homem, numa expressão que causaria arrepio aos teólogos, deu trabalho a Deus. A criação não foi um ato gratuito e sem importância. Houve um investimento de Deus em nós e no mundo, por isso Ele pôde olhar para tudo e sentir, ao final, o prazer de uma realização. Mas não só isso, descansou Deus também no sétimo dia.

Há um momento do processo criativo no qual precisamos ter a coragem de descansar da criação. Dar o trabalho por encerrado. Trata-se de um ato de coragem, assumir os riscos de dizer – está acabado, foi isso o que eu produzi – e não poder de nada mais se desculpar. Algumas vezes é melhor ser mediano com pouco trabalho e poder sempre dizer – ensaiamos tão pouco – do que correr o risco de não sermos “geniais” ao final de todo nosso esforço. Talvez parte do que nos impeça de investir tudo o quanto podemos em um trabalho não seja realmente a preguiça, mas o medo de percebermos que, mesmo depois de tudo, não conseguimos fazer o suficiente.

Se me permitem terminar com um pequeno conselho, sempre que se der tudo, se terá dado o suficiente. Talvez não para aquela obra em particular, mas para o trabalho em geral. Nosso próprio ministério também é um processo, não se resume a um ou a outro episódio. O compromisso não é o de se fazer sempre coisas boas e memoráveis, mas o de crescer sempre com aquilo que se faz. Não fazer por acaso, não trabalhar de qualquer jeito, mas com método, ser sincero na autocrítica e corajoso ao encarar o processo. Compreendendo, por fim, que "o todo é maior que a soma das partes” e que tudo isso é sempre muito bom.

Que Deus os abençoe.

texto de Guido Conrado, extraído do Portal Cristianismo Criativo

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A diferença entre arte e cultura


Artigo de Helena Katz para o Jornal Urbano (abril/2009).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Igreja como Promotora de Arte

Carol Gama participando do debate no ArteCéu (Som do Céu 2009)
Gladir Cabral, Carol Gama e Denise Bahiense - debate ArteCéu (Som do Céu 2009)

Uma das pessoas muito bacanas com as quais o Catavento estreitou laços é a Carol Gama. Artista plástica formada pela Unicamp e Produtora de Arte do Programa Plataforma, a Carol expôs seu belíssimo trabalho "Estandartes do Vento" no ArteCéu - espaço no qual o Catavento também se apresentou durante o Som do Céu 2009. A gente se deu muito certo e faz questão de trazer pra vocês um pouco da reflexão proposta pela Carol durante um dos debates que rolou por lá.

Aproveitamos para deixar aqui registrado nossa admiração pelo trabalho da Carol! Um beijo do catavento pra você, querida!

A Igreja como Promotora de Arte

Carolina Gama

"Recentemente fui convidada a participar de um debate cujo tema era “A igreja como promotora de arte”. Apesar da minha timidez e da tendência a fugir de confrontos, concordei em ir porque como artista e como cristã sei que o meu silêncio não é uma opção. Não acho que eu tenha muito a oferecer, confesso que tenho mais questionamentos do que respostas. Por isso optei por contar um pouco da minha experiência e de algumas reflexões que fiz ao longo do caminho na esperança de, com isso, dar uma pequena contribuição.

Tempos atrás, numa Bienal do Livro, assisti a um bate-papo entre a poetisa Adélia Prado e o Frei Beto. Em certo ponto da conversa o Frei Beto disse - “A Adélia olha para uma pedra e vê um diamante”. A Adélia, por sua vez, respondeu que ela não fazia nada, apenas servia de instrumento nas mãos de Deus. Nas artes, costuma-se ligar o termo “beleza” a coisas alegres, simétricas, coloridas e relaxantes. Eu prefiro o ponto de vista do Frei Beto. Penso que o artista que reproduz a beleza em seu trabalho, não é aquele capaz de recriar uma imagem com perfeição, que usa como tema apenas elementos da perfeita criação de Deus ou temas bíblicos. O artista que retrata a beleza em sua obra é aquele capaz de mostrar o mundo aos olhos de Deus. É aquele que propõe uma maneira completamente nova de olhar para as coisas, encontrando vida nos mais obscuros cantos do coração do homem, dando lugar de destaque ao que é considerado inútil, marginal, simples. É o que “olha para uma pedra e vê um diamante” e é capaz de comunicar isso ao outro.

Um exemplo muito conhecido de artista cristão foi Vincent Van Gogh. Por mais que tentem classificá-lo como “Impressionista” ou “Expressionista”, ele foi único, produzindo uma obra à frente do seu tempo, e oferecendo um jeito singular de olhar para o mundo. Quando foi para as minas de carvão da Bélgica, como um jovem missionário, fazia desenhos para vender e dar o dinheiro aos pobres. Mas o que ele desenhava eram os carvoeiros miseráveis que viviam a sua volta, em seus sofrimentos e beleza.

Há dois anos fui assistir a um sarau em uma igreja na cidade de São Paulo. O intuito dos organizadores não era apenas promover apresentações musicais, mas incluir no programa outras formas de arte. Para a exposição de artes plásticas compraram alguns metros de tecido preto (que deveriam cobrir as janelas) e neles fizeram uma “arte moderna”. Lambuzaram as mãos de tinta e imprimiram no tecido, espirraram tinta no tecido, etc. Tudo muito colorido no fundo preto. Esses tecidos foram pendurados. E em cima de cada um colocaram uma etiqueta com o nome da “obra” e do “artista”. Primeiramente, se considerarmos que aquelas cortinas eram obras, seria uma falta de respeito colar a legenda em cima delas, o mais adequado seria ao lado, na parede. Em segundo lugar, a técnica de arte escolhida demonstra o preconceito que existe de muitos com relação ao que é a arte moderna e contemporânea.

Quem não tem muito conhecimento das artes plásticas tem a tendência de achar que hoje qualquer coisa que se faça é arte. Não se leva em consideração o percurso histórico que levou artistas a fazerem uma arte aparentemente banal e fácil, e nem se leva em consideração o processo de trabalho do artista que não produz seu trabalho em cinco minutos, ou se o faz é devido a uma bagagem técnica e teórica acumulada. No caso dessa igreja, o intuito de promover a arte se tornou deboche e desrespeito. Poderia-se dizer que ao menos houve uma iniciativa desses irmãos. Mas eu tenho pensado muito sobre os recursos que temos e o quanto desfrutamos deles. E acredito que a desculpa de que “ao menos houve uma iniciativa” é inaceitável no contexto onde aquelas pessoas estavam inseridas.

São Paulo concentra uma variedade ampla de artistas plásticos, de museus e de galerias de arte. Os dois principais jornais da cidade divulgam diariamente exposições tanto de obras de arte históricas quanto de artistas contemporâneos. Quem não gosta de ir a museus, ou não tem tempo, encontra obras de artistas consagrados, como Tomie Ohtake, espalhadas pela cidade, em canteiros, praças ou calçadas. Nem o crente, que tem a desculpa de que só “consome” arte de artistas cristãos, tem desculpa. Existem muitos artistas plásticos profissionais que são cristãos, que atuam no meio secular. Alguns inclusive tem suas obras em museus e coleções importantes do país. Além disso, existe a internet, onde inúmeros artistas, museus e galerias do mundo todo exibem obras e fornecem informações sobre artistas e sobre o que são as artes plásticas e visuais. No mínimo existe o Wikipedia.

A igreja não pode promover a arte sem antes conhecê-la, compreender suas normas, sua essência, seus porquês. Como é possível promover algo que não se conhece? Se considerarmos que as artes são linguagem, como podemos dialogar sem escutar? O que a igreja tem feito em geral, é criar uma arte dentro de uma redoma, incapaz de dialogar com o mundo ao seu redor. E isto não é arte. No mínimo é uma arte aleijada, pobre e que não acrescenta nada.

Em um primeiro momento acredito que a igreja deve ser acima de tudo incentivadora da arte, estimulando seus membros a conhecer a arte, a frequentar exposições, apresentações, cinemas ou qualquer outro lugar onde a arte seja promovida de maneira séria e profissional. Deve-se desvincular a arte da instituição religiosa. Num segundo momento a igreja deve se prontificar a acolher essa realidade, suas contribuições, tensões, impressões, desfavores, contradições e acolher inclusive aqueles que escolherem enveredar por esse caminho."



segunda-feira, 13 de abril de 2009

Documento importante

Queridos companheiros de caminhada,
Acabamos de chegar do Som do Céu e temos muita coisa boa pra contar e compartilhar...
Uma das mais importantes é a "Carta do Som do Céu" - um documento produzido durante o evento, fruto de debates que aconteceram nos dias 07 e 08 de abril. Músicos importantes participaram do processo como João Alexandre, Carlinhos Veiga, Jorge Camargo, Nelson Bomilcar, entre muitos outros. A idéia é que essa carta seja divulgada e chegue até a liderança das igrejas.
Leia com carinho e atenção porque o documento não trata só da música, mas da arte de uma forma geral. Vamos lá:

Carta do Som do Céu

Introdução

Nós, músicos, artistas e líderes eclesiásticos, cristãos, vindos das variadas regiões brasileiras, estivemos reunidos entre os dias 6 a 12 de abril de 2009, no Acampamento da Mocidade Para Cristo do Brasil, dias de comemoração dos 25 anos do Som do Céu, para discutir dois temas principais: “A música e os músicos na igreja” e “A igreja como promotora de cultura”. Agradecemos a Deus pelos dias de comunhão fraterna entre nós e pelo privilégio de ouvi-lo entre as vozes pastorais e proféticas que ecoaram em nosso meio. Reconhecemos que a música cristã tem ocupado um espaço significativo em nossos dias, tanto na igreja como na sociedade em geral. No entanto, observamos que nem sempre essa participação tem sido consistente e coerente com a Palavra de Deus – nosso referencial maior – nem rendido glórias ao Senhor da Igreja. Desejamos, portanto, apresentar à Igreja brasileira a “Carta do Som do Céu”, sintetizada em 25 pontos, que resume nossas inquietações e propõe ações práticas à Igreja de Cristo Jesus, nesse princípio de século XXI:

1. O artista cristão deve desenvolver o seu dom criativo e submetê-lo exclusivamente aos valores da Palavra de Deus;
2. Cremos que a arte, na perspectiva da graça comum, é um presente dos céus a toda humanidade e não está restrita aos cristãos;
3. Desejamos que haja coerência entre a vida, o ministério e a profissão do artista cristão, cujo discurso deve estar aliado à sua prática;
4. Esperamos que o artista cristão busque servir a Deus e à sociedade com excelência e integridade, dedicando-se ao desenvolvimento dos talentos e dos dons recebidos do alto;
5. A igreja precisa estar atenta ao artista cristão como parte do rebanho de Deus e dar a ele a atenção devida, despida de preconceitos, e oferecer-lhe pastoreio e discipulado, objetivando a sua formação espiritual e ética;
6. Esperamos que o artista cristão esteja envolvido em uma igreja local, servindo-a e amando-a como Corpo de Cristo. Deve ser rejeitada toda e qualquer tentativa de desenvolvimento de uma fé individualista e distante da comunidade;
7. Reafirmamos que a elaboração de textos e letras deve ter embasamento nos valores da Palavra de Deus;
8. Comprometemo-nos a dedicar atenção e reflexão às canções que são introduzidas no culto de adoração e nas demais atividades da igreja, buscando um repertório equilibrado e consciente e evitando, de todas as formas, que heresias e desvios teológicos adentrem sutilmente em nossas comunidades;
9. As igrejas, as instituições de ensino teológico e os artistas cristãos devem combater o ensinamento equivocado e amplamente difundido de que louvor e adoração restringem-se à musica, ensinando, por demonstração e exemplo, que se trata de um estilo de vida que envolve todas as áreas da nossa existência e que a música, assim como outras formas de arte, é expressão legítima de louvor e adoração;
10. A igreja deve agir como facilitadora na adoração e abrir espaço para que todos expressem seu louvor a Deus;
11. Esperamos que o músico cristão busque e desenvolva a santidade, vivendo uma vida piedosa, tanto no serviço prestado a Deus na igreja, quanto fora dela, em sua atividade profissional;
12. Rejeitamos a dicotomia que faz separação entre o sagrado e o secular e cria espaços estanques na vida do cristão. O Senhor Jesus é soberano e governa todas as instâncias da vida, e, por isso, devemos somente a ele a nossa fidelidade, agradando-o em tudo e rejeitando tão-somente o que ofende a sua glória;
13. A Igreja não se pode esquivar de sua responsabilidade diante da cultura na qual está inserida; deve mentoriar a reflexão e a prática de uma teologia de arte e cultura;
14. Incentivamos as igrejas a abrir suas dependências para a realização de eventos culturais como exposições, mostras, cursos, saraus e outras atividades visando à educação, à divulgação e à aproximação da sociedade;
15. Mesmo entendendo que todo trabalho na igreja é voluntário, podemos honrar com sustento ou remuneração aqueles que se dedicam ao ministério musical, se a comunidade disponibiliza de recursos para tal;
16. Entendemos que nossa arte deve encarnar uma voz profética e manifestar em seu conteúdo os valores do Reino;
17. Recomendamos que as igrejas promovam encontros de reflexão sobre a utilização das artes no Reino de Deus, capacitando os artistas para a realização de seu trabalho;
18. Incentivamos os músicos a expressar em sua arte a beleza de Deus por meio de uma contextualização e diversidade musical;
19. Reconhecemos o caráter essencialmente transformador e questionador da nossa arte e não cremos que ela deva estar a serviço do mercado;
20. Muito embora os artistas cristãos não se devam render aos senhores da mídia, tornando-se reféns desta, podem utilizar de maneira ética os meios de comunicação como canal para a divulgação de sua arte, proclamando, assim, o Reino de Deus;
21. No que se refere ao relacionamento entre os músicos e a liderança eclesiástica, encorajamos o diálogo, o respeito e o reconhecimento mútuo de seus ministérios como algo dado por Deus;
22. Incentivamos que os artistas cristãos busquem perante o Estado e a iniciativa privada recursos para a promoção de sua arte por meio de leis de incentivo à cultura, editais para financiamento de projetos culturais etc.
23. Encorajamos as igrejas a investir na educação e na formação de artistas;
24. Propomos que as igrejas e as instituições de ensino teológico incentivem as diversas manifestações artísticas e não somente a área musical;
25. Compreendemos que o ofício de artista é legítimo como tantos outros, podendo ser exercido pelo artista cristão no mercado de trabalho e devendo ser apoiado e incentivado pelas comunidades cristãs.

São Sebastião das Águas Claras, 09 de abril de 2009.

Assinam:

Debatedores:
Aristeu de Oliveira Pires Junior – Canela (RS)
Carlinhos Veiga – Brasília (DF)
Denise Bahiense – Rio de Janeiro (RJ)
Erlon de Oliveira – Belo Horizonte (MG)
Gladir Cabral – Florianópolis (SC)
João Alexandre Silveira – Campinas (SP)
Jorge Camargo – São Paulo (SP)
Jorge Redher – São Paulo (SP)
Marcos André Fernandes – Garanhuns (PE)
Marlene F. Vasques – Goiânia (GO)
Nelson Marialva Bomilcar – São Paulo (SP)
Paulo César da Silva – São José dos Campos (SP)
Romero Fonseca – Goiânia (GO)
Rubão Rodrigues Lima – Brasília (DF)
Sérgio Paulo de Andrade Pereira – Ribeirão Preto (SP)
Wesley Vasques – Goiânia (GO)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Trechos de Dudude



“A dança contemporânea caminha pelo viés do corpo, do movimento orgânico não convencionado, dando à vida cotidiana, ao seu gesto mínimo, uma dimensão artística provinda da sensibilização do olhar e de um processo de conhecimento e conscientização do próprio corpo.”

“Para dançar, é preciso estudar o mundo e estar disposto a perder o corpo, para reencontrá-lo liberto em sua potência de expressão. É preciso andar pelas linhas de fuga, reconhecendo que as coisas são cíclicas e estão em movimento. A arte é mutável, hoje eu tenho esse corpo, amanhã será outro.”

"A arte representa uma mudança de espaço - os sentidos dilatam, vem o invisível. A experiência do tempo se modifica. Dessa forma, a função do artista é mudar o estado das coisas, fazer uma pedra virar um coração.”

“O corpo é como a areia. A mente é como o vento. Para reconhecer o percurso da mente, é preciso reconstituir seu desenho movente na areia dos corpos.”



*Dudude Herrmann trabalhou em inúmeros espetáculos como coreógrafa e bailarina. Coreografou e deu aulas na Companhia de Dança de Minas Gerais e no 1° Ato Grupo de Dança. Em 1992, criou a Companhia Dudude Herrmann - hoje chamada Benvinda Cia de Dança. De lá pra cá, foram diversos espetáculos e uma trajetória marcada por prêmios. Seus últimos trabalhos são “O Armário” (1999), “Barrocando” (2000) e “4 Solos para 3 Intérpretes” (2002). Por dez anos coordenou a área de dança do Festival de Inverno da UFMG e já completa vinte e cinco anos de trabalhos como professora. Hoje, promove em seu estúdio incontáveis eventos, cursos e encontros e continua a refinar a pesquisa da consciência corporal.
http://www.dududeherrmann.art.br/

[Retirado de texto publicado em periódico da Fundação de Educação Artística (nº2) – Perfil, 08 de novembro de 2002].

domingo, 14 de dezembro de 2008

Falando de arte

O texto abaixo fala sobre música, mas fala também sobre arte, sobre dança, sobre o dom sublime e divino do fazer artístico. Vale a pena conferir:

No balanço do samba do avião, lembrando a bossa nova e e música na Igreja Brasileira

por Nelson Bomilcar

Meses atrás, estava visitando a exposição de comemoração do aniversário da bossa nova no Ibirapuera em São Paulo, que foi muito bem feita e se tornou um marco cultural na cidade. São Paulo é cenário de muitos movimentos culturais e artísticos. Impressionante o número de estrangeiros neste evento. Ouvir e ver vários filmes, documentários, depoimentos, contexto social, econômico e político da época, registros de Jobim, João Gilberto, Vinícius de Morais, Johnny Alf, Roberto Menescal, Nara Leão, Carlos Lira Edu Lobo, e tantos outros, trouxe boas lembranças e influências em minha vida e família, bem dentro de nossa casa e de nosso toca-discos. Período de final de ditadura, dos festivais da Record, das orquestrações do Ciro Pereira e do inovador Rogério Duprat. E no pano de fundo, as canções da dupla Lennon e McCartney e as tabelas de Pelé e Coutinho no Santos.

Minhas irmãs Marina e Dora receberam seus nomes de minha mãe, homenageando um dos seus compositores favoritos (Caymmi). Meu irmão Roberto “São José” Bomilcar se tornou um pianista que conhecia, ensinava e tocava tudo da música brasileira nos shows e nas faculdades, além do jazz que tanto ama. Fomos vizinhos dos irmãos Godói: Amilton (Zimbo Trio), Adilson, Amilson, do Hermeto Paschoal, e respiramos as aulas e o ambiente da escola de música CLAM, vendo nossos filhos iniciarem suas trajetórias na música cantando Tom Jobim, Edu Lobo, Ivan Lins e outros. Roberto acompanhou, durante anos, vários intérpretes da música brasileira em trios, quartetos, big-bands e também na Jazz Sinfônica. Ele estava naqueles dias da exposição no Ibirapuera, ao lado no prédio da Bienal, tocando para o público no espaço e programa especial da bossa nova “Piano ao cair da Tarde”, veiculado pela rádio Eldorado.

“Chega de saudade, que nada”, pensava eu, pegando carona no título do livro escrito de Ruy Castro, que veio de fato matar (ou alimentar?) esta saudade; queria mais curtir aqueles momentos mágicos da criatividade presentes em nossa maravilhosa cultura e dos movimentos criativos que brotaram nela e na história de nosso país.

Com 35 no evangelho e no contexto da igreja, tentei com mais alguns músicos, compositores e autores (Wolô, Pimenta, Guilherme Kerr, Aristeu Pires, Edy Chagas, Arthur Mendes, Jorge Camargo, João Alexandre, Edson e Tita Lobo, Carlinhos Veiga, Jorge Rehder, Janires, Josué Rodrigues, Gerson Ortega e tantos outros), contribuir e mudar um pouco do curso, do conteúdo e da sonoridade do que acontecia até então dentro dela.
Este movimento, em muitas décadas,continua fértil e crescente hoje na música de excelente conteúdo de Gladir Cabral, Gerson Borges, Stênio Marcius, Edílson Botelho, Glauber Plaça, Rubão, Vandilson Morais, Wanda Sá, Silvestre Kuhlman, Arlindo Lima, Mário Valadão, o surpreendente e renovador grupo Crombie, Roberto Diamanso, e outros, fora os excelentes músicos, arranjadores e produtores que temos hoje em nosso meio: Ervolini, Marcos Cavalcante, Thiago Pinheiro, Maurício Caruso, Daniel Maia, Wiliams Costa Junior, Marinho Brazil, Erlon Oliveira, Davi Lisboa Neto, Domene, César Elbert, Felipe Figueiredo, Hilquias Alves, Bruno Migotto, Marinho Andreotti, Cláudio Rocha, Marcos Godói, dentre tantos que poderíamos citar.
Mesmo assim, constato que quase sempre acordamos tarde, chegamos depois ou ocupamos os espaços atrasados no tempo, inclusive pela mentalidade fechada, retrógrada e engessada do segmento protestante brasileiro, que excluiu indevidamente - por décadas - as artes e a cultura dos “terrenos sagrados” em que poderíamos ou deveríamos atuar e estar na sociedade.

A profissão e a atuação do artista foram consideradas dignas pelo Deus Triúno e Autor da Criação, como todas as outras, e não foi discriminada. A Arte em si, em sua mais profunda essência e primeira manifestação, acontece junto do movimento criador e criativo (Gênesis) e é anterior a qualquer religião estabelecida na história do homem. Fomos criados para desfrutar dela na companhia do Criador, inspirador e realizador de tudo.

Neste último final de semana, saindo de São Paulo rumo a Fortaleza, um pouco deste movimento na história veio de forma generosa no balanço do avião que peguei. Fizemos escala no Galeão e pude contemplar mais uma vez a Baía da Guanabara, Corcovado, Pão de Açúcar. Estava esperando os que embarcariam no Rio, lendo a revista Cover Guitarra que havia comprado com uma matéria central sobre o trabalho do Maurício Caruso, querido irmão, arranjador e guitarrista que toca comigo na Confraria das Artes.

Estava grato a Deus pelo testemunho e pela presença dele exercendo sua profissão e sendo reconhecido no meio artístico. Sentado em minha poltrona e com emoção, vejo a ”tchurma” ou parte da bossa nova começando a entrar no avião: João Donato, Roberto Menescal, Os Cariocas, Marcos Valle e outros me fizeram desejar compor outro e novo "Samba do avião”, sabendo hoje que o Cristo Redentor vivo, não o da Guanabara, recebeu-me de braços abertos e habita faz 36 anos também no coração do colunista aqui, simples mortal, e que isto me fazia olhar todos ali com outros olhos, mas com a mesma admiração.

Mas, não foram somente eles que entraram neste avião: entraram também quatro personagens (irmãos) conhecidos da mídia evangélica e que fazem a chamada música gospel do segmento de mercado que tem deixado de lado o próprio evangelho, cada um de uma gravadora do meio. Não vi ali a simplicidade e a acessibilidade que encontrei naqueles outros que, com sua música e criatividade, mudaram a sonoridade da música no Brasil e influenciaram o mundo com a bossa. A fauna e a flora ali naquele vôo, e não tinha para onde correr. Não vou citar os do mundo gospel para não pegar carona ou popularizar indevidamente este artigo. Todos os do “gospel” sentaram para trás no avião, dois deles com “seguranças”, e pensei eu com meus botões criticamente... atrás de novo... na história passada, na recente, no avião também... mas em matéria de postura soberba, estavam numa altitude similar ao do vôo... que tristeza.

Fiquei ali na parte do meio do avião, já que tínhamos quase três horas para chegar, puxando papo com um ou outro da bossa nova, ouvindo histórias, e falando um pouco da música popular cristã. Tento deixar um acervo no programa que faço na rádio Transmundial (Sons do Coração). Os da bossa -puxa - gente simples mesmo e atenciosos......como temos que aprender! Já sabia que os mais familiarizados com o evangelho eram João Donato e o próprio Menescal, graças à influência e ao testemunho da excelente violonista e cantora Wanda Sá, contemporânea de bossa, nossa irmã de fé.

O avião pousou e terminara aquela curta, inusitada e inesquecível viagem. Não poderia assistir ao show deles à noite, pois tocaria em outro evento no mesmo horário, falando sobre a “Arte a serviço do reino de Deus” em nossa pequena e tímida história. Porém, rica e emocionante. Simultaneamente na sexta onde falei, estava acontecendo aqui em São Paulo o II Fórum do Cristianismo Criativo, promovido pela W4 Editora, com o tema do livro do Frank Schaeffer: “Viciados em mediocridade?”, com a participação do Jorge Camargo e o Gerson Borges, mediados pelo Pavarini. O Gladir Cabral não poderia vir mais, pela tragédia das chuvas e dos deslizamentos acontecidos em Santa Catarina. Fica para a próxima!

Fiquei feliz por ter este espaço aberto para reflexão, conscientização, ensino, crítica e desafio para os artistas cristãos ocuparem seus espaços, fazendo arte com beleza, expressões culturais diversas e integridade. Não deveríamos ter saído dos espaços culturais, do exercício profissional, para inclusive sermos sal e luz. Estamos retomando e ocupando lugar e presença. Mas com muito atraso! Não sejam, então, nossas sinceras pretensões utópicas. Façamos singelamente o que é possível, com os pães e os peixes de que dispomos, “cada macaco no seu galho”, mas numa mesma floresta e aldeia.

Abri o jornal de sábado de manhã em Fortaleza, depois da quinta e sexta inusitadas e vi anunciado dois shows do Tom Zé marcados para a noite e no domingo também. Fiquei alegre e esperançoso, pois sabia que o Daniel Maia, amigo e companheiro de canções, estava no time deste “ícone” da música brasileira. Ele é o arranjador e guitarrista do Tom hoje. “Ó nóis aqui traveis.....”. Artistas precisam também de orações, encorajamento e acompanhamento onde estiverem.

Estamos marcando presença como bons artistas profissionais e, de quebra, levando a luz de Jesus para brilhar no meio artístico sempre que possível. Nossa ausência não ajuda em nada. É terreno igualmente sagrado a ser ocupado. São sinais de esperança! Nem tudo está perdido! Adoração a Deus é também nossa presença no mundo das artes com excelência . Tem muita coisa boa que vem acontecendo e projetos surgem pela frente!

Bom, agora no bom sentido da expressão, chega de saudade. Desafios novos para fazer no mundo das artes e no mundo contemporâneo. Resgatar e ocupar espaços. Aprender com a história e o conteúdo da cultura e da arte. Novos sons, novos tons, novas telas, novas palavras, novas cores, novos textos, novas peças, novas coreografias, nova estética, novas danças, novas contextualizações, regadas e inspiradas pelo Criador de ontem, hoje e sempre!
texto publicado no www.cristianismocriativo.com.br

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A palavra “coreografia”: sua história e sua origem



[...] O termo “coreografia” tem um contexto histórico variado, ele é derivado da palavra coreia (χορεία), uma dança grega dançada em círculos e acompanhada por canto. Derivados da palavra coreia são usados para descrever danças de círculo em alguns lugares: Khorovod (Rússia), Hora (Romênia, Moldova, Israel), Horo (Bulgária). Paracelsus usou o termo “coréia” para descrever os movimentos físicos rápidos, dos viajantes medievais.

Raoul Feuillet e Pierre Beauchamp usaram uma adaptação da palavra coreia para descrever a notação da dança. Chorégraphie de Feuillet (1700) ajustou o termo para um método da notação da dança e estabeleceu-se o termo chorégraphie (coreografia) para a escrita, ou notação das danças. Assim, uma pessoa que escrevesse para danças era um choreographer (coreógrafo), mas o criador das danças era conhecido como um “mestre da dança“ (Le maître un danser) ou, em uns anos antes, um “mestre do ballet”.

Desta forma, o termo “coreografia” surge na dança em 1700, na corte de Luiz XIV, para nomear um sistema de signos gráficos, notação da dança, capaz de transpor para o papel o repertório de movimentos do balé daquela época. Seu criador, Raoul Auger Feuillet, mestre de balé, introduziu seu neologismo que literalmente quer dizer a grafia do coro. Vem do grego choreia (dança), e graphein, (escrita), significando a arte de criar e compor uma dança.

A rejeição do vocabulário e dos termos do ballet pela dança moderna resultou no termo “coeógrafo” que substitui o “mestre do ballet” e conseqüentemente a “coreografia” veio significar a arte de fazer danças.

A partir do século XIX, a técnica de “escrever o movimento” recebeu um nome: “notação coreográfica”. O termo coreografia passou a significar a arte na composição da dança, e o coreógrafo, o profissional que coordena essa composição.

Não se sabe ao certo como aconteceu a mudança no emprego do termo coreografia como sistema de notação para estrutura de organização dos movimentos do corpo no tempo e no espaço, a hipótese provável é de que, como em outros casos, a marca coreografia tenha assumido tamanha popularidade que substituiu o produto dança. Sabe-se, no entanto, que foi Serge Lifar quem publicou o Manifesto Coreográfico 1935, onde coreografia aparecia em sua nova acepção. Este manifesto seguiu a lógica de outros manifestos da época em diferentes áreas da arte, não trazia uma sistemática de abordagem prática, e sim, apresentava linhas gerais nas quais a arte da dança deveria se pautar [...]

(trecho do texto "A Escrita da Dança: pequeno histórico da notação sobre a notação do movimento" de Ana Lígia Trindade, publicado no Idanca)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Qual é a sua dança?

por Carol Gualberto
Passeando pela internet, sempre desejando entender como os cristãos têm se relacionado com a dança, esbarrei em uma pesquisa on-line que perguntava: Qual é a sua dança preferida? Para responder, bastava escolher uma das opções: dança moderna, balé moderno, balé clássico, dança litúrgica, dança de rua, dança hebraica e dança espontânea.

Passeando pela cidade e observando os letreiros, li a placa de uma grande academia que, dentre tantas modalidades corporais como Jazz, Musculação, Balé Clássico e Jiu-Jitsu, oferecia ainda o curso de Dança de Adoração.

Passeando por aqui e com uma profunda inquietação, optei por “dar a cara a tapa” e dizer que, em meio a tantas opções esquisitas, ainda não me encontrei. Qual é a minha dança? Quem pergunta certamente não sabe muito bem a enorme diferença entre dança moderna e balé moderno, quanto mais os fundamentos (se é que eles existem) das danças litúrgica e espontânea. Ainda assim, percebo-me um “peixe fora d’água”, sem lagoinha pra nadar.

O que define a dança? Sua técnica, seu intuito, seu contexto? Será que essas danças com nomes gospel têm como objetivo santificar a dança que a igreja acredita ser tão mundana e impura?O que significa ter aulas de Danças de Adoração ou Dança Profética? Se a Bíblia já define o que é adoração (Colossenses 3:17 – “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.") porque preciso fazer aulas pra aprender a adorar com a dança? Ela, que por si só, pode adorar a Deus a partir do momento em que eu faço uma coreografia bem feita, ainda que a mesma não tenha uma temática óbvia cristã. Posso adorar a Deus com danças fazendo uma boa aula, ainda que o curso seja de dança-afro ou qualquer outra dança “menos sacra”. Se busco crescer, estudar, pesquisar e me aperfeiçoar corporal e tecnicamente, estou adorando a Deus, ainda que focada mais no corpo (ou seria carne?) que na “alma”.

E com toda essa confusão e bagunça espiritual, descobri que adorar a Deus é, essencialmente, tratar o assunto com seriedade e propriedade, não sendo levado por qualquer nova onda que surge, legitimando bizarrices e loucuras ─ a-danças inventadas em nome de Deus.

Qual é a sua dança? Dentre as opções sugeridas pelos modismos evangélicos, ainda não encontrei a minha resposta. Espero que você também não.
(texto escrito para o Portal Cristianismo Criativo)

sábado, 1 de novembro de 2008

Que dança a gente dança


"Essa tal de dança contemporânea"

– Tu faz dança? Que legal! Mas que tipo de dança?– Dança contemporânea.
O sujeito fica parado e depois de vencer o constrangimento:
– Mas o que é essa tal de dança contemporânea?
Daí o vivente, que faz dança contemporânea e sabe bem o que faz, se vê em apuros para dar uma resposta clara. Afinal, dança contemporânea não é uma técnica ou método que vem com rótulo. Então, ele arrisca:
– Sabe o Quasar Cia. de Dança? – que o vivente acha referência no país e crê ser bastante conhecida.
O sujeito permanece na mesma.
– E o Grupo Corpo? – ele lembra, já entrando em desespero. – E Deborah Colker? – ainda que não fosse o melhor exemplo que você quisesse dar.– Ah, já vi na televisão, responde o sujeito finalmente com um brilho no olhar de quem agora pode encerrar a conversa.
E o vivente, com a certeza de que não conseguiu explicar e que melhor que explicar era sugerir que assistisse a um espetáculo.


A realidade é esta que o suposto diálogo acima ilustra. A idéia de dança contemporânea não consolidou uma referência para a maioria do público (e mesmo para a comunidade de dança), ainda mais num Estado que vê com desconfiança aquilo que não é tradição. E isso vale muitas vezes para quem produz, ou acha que produz, dança contemporânea. Basta ver a confusão em tantos festivais competitivos. O território da dança contemporânea é um vale-tudo. Passos de jazz com música experimental. Neoclássico ao som do diálogo dos bailarinos. Dança de rua com um toque de vanguarda. E a obra, nesta lógica estapafúrdia, é avaliada por especialistas de toda ordem, menos de dança contemporânea.
Esta realidade tem como origem a rara circulação de informações e o consumo de informações descontextualizadas e superficialmente elaboradas. A qualidade dessas informações é essencial e precisa ser difundida a quem pretende preparar um treinamento, criar, julgar e apreciar a dança contemporânea. Não dá para saborear morangos e reclamar de que não têm gosto de figos. Ninguém curte uma partida de futebol sem conhecer as regras do jogo. Nesse sentido, é preciso apresentar alguns fatos, ainda que de forma sintética, para que eles possam falar desta tal de dança contemporânea.
Fato 1. A dança contemporânea não é uma escola, tipo de aula ou dança específica, mas sim um jeito de pensar a dança. Forjada por múltiplos artistas no mundo, teve nas propostas da Judson Church, em Nova York, na década de 60, sua mais clara formulação de princípios. Dentre eles, o de que cada projeto coreográfico terá de forjar seu suporte técnico. E que ter um projeto é percorrer escolhas coerentes, como o fez Trisha Brown – e também, longe dali, na Alemanha, Pina Bausch, com sua dança-teatro, nos anos 70. Tal princípio implicou tanto a preservação de aulas de balé nutridas por outras técnicas e linguagens quanto o abandono do balé e a incorporação, por exemplo, de técnicas orientais. Assim, passou a se constituir uma infinidade de alternativas, como o teatro-físico do DV-8 (companhia inglesa composta só por homens, que aborda a homofobia e que recorreu ao uso de corpos que expressam força, agressividade e sexualidade, coisa que o balé não podia fornecer).
Fato 2. Não há modelo/padrão de corpo ou movimento. Portanto, a dança não precisa assombrar por peripécias virtuosas e nem partir da premissa de que há “corpos eleitos”. Na dança contemporânea, a máxima repetida por pedagogos ortodoxos de que “não é tu que escolhes a dança, mas a dança que te escolhe” não tem sustentação. E, dessa forma, pode-se reconhecer a diversidade e estabelecer o diálogo com múltiplos estilos, linguagens e técnicas de treinamento.
Fato 3. Dança é dança. A dança contemporânea reafirma a especificidade da arte da dança. Dança não é teatro, nem cinema, literatura ou música. Apesar de poder ganhar muito com a cooperação dessas artes. A dança não precisa de mensagem, de história e mesmo de trilha sonora. O corpo em movimento estabelece sua própria dramaturgia, sua musicalidade, suas histórias, num outro tipo de vocabulário e sintaxe.
Fato 4. The Mind is a Muscle, proclamou Yvone Rainer quando a dança pós-moderna norte-americana abalava o estabilishment. Pensamento e corpo, tão separados na tradição ocidental, não são entendidos como lugares estranhos um ao outro. Até mesmo a ciência já traz evidências de que razão e emoção não são opostos. O pensamento se faz no corpo e o corpo que dança se faz pensamento. Isso não implica uma cerebralização fria, no caminho de uma dança conceitual, nem na biologização vazia da dança. Tal princípio não exime a qualidade técnica, nem o sabor e o prazer de dançar. Ele ressalta a complexidade que precisa ser compreendida.
Tais fatos precisam começar a ecoar, se o objetivo é saber o que é esta tal de dança contemporânea, que as pessoas insistem em dizer que fazem e que insiste em permanecer em cartaz em teatros, calçadas, estúdios [...] A partir desses fatos, pode-se muito (mas não se pode qualquer coisa). A liberdade trazida pela perspectiva da dança contemporânea não dispensa idéias fortes e a inventividade das grandes obras de qualquer forma artística, nem um domínio técnico (ainda que isso não caiba mais apenas nas esfera do aprendizado de passos corretos). A dança contemporânea evidencia que escolhas estéticas revelam posturas éticas. Numa época de tantas barbáries impostas ao corpo, é preciso recuperar esta ética quando se escolhe fazer arte com o corpo – seja o seu, seja (principalmente) o dos outros.
A dança contemporânea parece ter aceitado a provocação, com ecos de contemporaneidade, de Jean George Noverre. O mestre de dança, em 1760, ao falar sobre o balé e as rígidas regras da dança da época, afirmava: “Será preciso transgredi-las e delas se afastar constantemente, opondo-se sempre que deixarem de seguir exatamente os movimentos da alma, que não se limitam necessariamente a um número determinado de gestos”. Num mundo de tantas conquistas e descobertas sobre nós, seres humanos, seria no mínimo redutor ficar tratando a dança como apenas uma repetição mecânica de passos bem executados. Fazer tais passos, na música, ursos, cavalos e poodles também fazem. Creio que o ser humano pode ir mais longe que isso. Talvez este seja o incômodo proposto por esta tal de dança contemporânea. O de que podemos ser mais e muitos.

(texto de Airton Tomazzoni, extraído de Idança)